Racismo e objetificação são batalhas cotidianas das mulheres negras

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Se a luta das mulheres é árdua e esbarra em várias camadas de machismo, abuso, assédio e falta de direitos apenas por seu gênero, imagine incluir nesse cenário a cor da pele, o formato dos cabelos, a história de escravidão no passado e muitos outros problemas históricos. Nessa conta, coloque também a exploração de um estereótipo sexual. A soma de tudo isso é ser mulher negra na sociedade hoje, ontem e sempre. Para muitas mulheres negras, o 8 de março tem o gosto amargo do racismo e machismo. Esta é segunda matéria de uma série especial realizada pelo Jornal Midiamax, alusiva ao Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje (8).

A escritora negra Jarid Arraes define o feminismo negro como “a minoria dentro da minoria”. “Enquanto as mulheres brancas buscavam equiparar direitos civis com os homens brancos, mulheres negras carregavam nas costas o peso da escravatura, ainda relegadas à posição de subordinadas; porém, essa subordinação não se limitava à figura masculina, pois a mulher negra também estava em posição servil perante à mulher branca”, explica.

O recorte da violência contra a mulher negra vai além do movimento pelo voto e supera a violência já brutal contra a mulher branca. Os números do estudo “Mapa da Violência 2015: Homicídios de Mulheres no Brasil”, realizado pela Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), a pedido da Organização das Nações Unidas via ONU Mulheres, são alarmantes. Segundo o estudo, em 2015 morreram assassinadas 66,7% mais meninas e mulheres negras do que brancas. A vitimização de mulheres negras cresceu 190,9% de 2003 a 2015. A vitimização desse grupo era de 22,9%, em 2003, e saltou 66,7% no ano passado.

Representatividade

“A luta é o tempo todo, porque a gente sofre mais pela questão da cor da pele. É uma luta constante por cidadania e respeito”, resume a psicóloga e cantora Karoline de Oliveira, 24 anos. Em sua vivência, a luta feminista negra ficou mais forte do ano passado para cá, mas ainda carece de muito espaço.

A professora Jéssica Cândido, 25 anos, concorda. “Enquanto mulher negra, tenho várias amigas e pessoas que sofreram com a questão do machismo. E algo muito forte dentro da realidade da mulher negra é a hiperssexualização que acontece em nossa sociedade”, resume Jéssica. Nesse caso, ela se refere à estereótipos amplamente abordados pela mídia brasileira como a Globeleza, a mulata nua que samba e é “vendida” para o resto do mundo como um padrão das brasileiras, repleto de machismo e objetificação.

As jovens do movimento feminista negro rebatem outros padrões a partir da sua vivência cotidiana de racismo e preconceito. “Tudo isso são coisas que ‘batem’ em nosso psicológico. A mídia incentiva tudo isso, que existe todo esse conhecimento da mulher negra que era escrava, conhecimento ignorante na verdade, de que a mulher negra é a mulata do Carnaval”, reflete Jéssica.

Mudanças positivas

Romilda Pizani é militante do movimento negro há pouco mais de 20 anos e destaca que, mesmo assim, existe evolução do processo de empoderamento negro e feminino. “Meu olhar diante desse processo de evolução é extremamente positivo, e uma dessas situações por exemplo é a mulher negra no processo questão eleitoral, é a mulher negra na política. Hoje podemos vê-la na política, fazendo o processo na disputa com o homem. Ainda é uma minoria, mas hoje já é possível”, enfatiza.

Outro ponto positivo para a educadora social e representante sul-mato-grossense da Coordenação Nacional das Entidades Negras, é que no ramo profissional a mulher negra também avançou. “Para nós mulheres negras existe um mito, como se só pudessemos trabalhar ou de professora ou de enfermeira. Hoje podemos nos ver para além dessas profissões. Sem falar da questão dos trabalhos braçais, considerados subalternos, onde ainda nos vemos, mas hoje também nos vemos em outras posições, e isso é uma conquista”, relaciona. “Hoje temos aqui em Mato Grosso do Sul a promotora Jaceguara Dantas, uma mulher negra, a delegada Marlene Aguiar, a advogada Raimunda de Brito, temos na área da educação, que é fundamental, Vânia Lúcia Batista Duarte… várias mulheres negras”, cita Romilda.

Porém, ainda há muito a ser feito tanto no cenário das mulheres quanto do movimento pela luta dos direitos negros. “Não adianta ter um movimento com 10 pessoas e apenas uma negra falando. Isso não é representatividade. Precisamos ter nosso espaço de fala, ter mais mulheres negras em cargos de destaque, precisamos nos enxegar mais”, enfatiza Jéssica.

Por Daiane Libero.

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